ANGOLA COMO OUTRO ISRAEL

Há poucos dias, num almoço, enquanto se discutia os impactos da presente guerra, uma angolana na minha mesa, comentou algo como “a única coisa que agradeço a Salazar é o não ter permitido Israel instalar-se aqui no Planalto”. Este foi a gatilho para passar grande parte do fim-de-semana a pesquisar sobre assunto (mais uma vez, um assunto de que sabia pouco) e para escrever este artigo.

Por Vanda Narciso
duaslinhas.pt

No início do século XX, quando o antissemitismo se intensificava na Europa e o movimento sionista ainda não estava plenamente consolidado em torno da Palestina, surgiram propostas alternativas que hoje soam altamente improváveis.

Entre elas, uma ideia pouco conhecida: a possibilidade de Angola, então colónia portuguesa, acolher colónias agrícolas judaicas – ou até mesmo servir de embrião para um Estado Judeu fora do Médio Oriente.

A corrente conhecida como “territorialismo” ganhou expressão com a criação em 1903 da Jewish Territorial Organization (ITO), liderada por Israel Zangwill. Ao contrário do sionismo dominante, que apontava para a Palestina, esta organização defendia a criação de um território seguro para judeus em qualquer parte do mundo disponível.

Fontes históricas confirmam que vários territórios foram considerados – incluindo regiões na América do Sul, África e Ásia. Angola surge nesse contexto como hipótese, sobretudo pela sua extensão territorial, bom clima e potencial agrícola. Mas também por laços históricos muito antigos – afinal até houve Judeus enviados para Angola pela inquisição.

Entre 1907 e 1914, a ITO considerou Angola como possível destino, estabelecendo contactos junto do governo português para concessões de terra para colonatos judaicos. Há um relatório e chegou a haver um debates no parlamento português.

Alguns políticos argumentavam que havia grandes benefícios (especialmente económicos e demográficos) para Portugal.

Entre 1912 e 1914 a ideia perde força. Parece que o grande ponto de discórdia era saber se a colónia em Angola seria um colonato judeu sob a égide de Portugal, ou seria um Estado judeu independente? Questão que nunca chegou a ser clarificada e com o início da Primeira Grande Guerra o assunto é esquecido.

Durante as décadas de 1910 e 1920, o movimento sionista consolidava-se cada vez mais em torno da Palestina, especialmente após a Declaração Balfour. Ainda assim, alternativas continuaram a ser procuradas. Há registos de contactos esporádicos entre representantes judaicos e autoridades portuguesas, mas não há evidências de negociações formais ou planos concretos na década de 20 especificamente para Angola.

A iniciativa mais consistente foi liderada por Isaac Nachman Steinberg, fundador da Freeland League for Jewish Territorial Colonization. No final da década de 1930, sob a sua liderança, a organização chegou a incluir Angola entre os territórios objevto de contactos e negociações diplomáticas.

Steinberg terá desenvolvido contactos com o governo português, propondo a instalação de dezenas de milhares de judeus em colónias agrícolas autossuficientes em Angola.

Foram elaborados alguns documentos que previam o desenvolvimento agrícola, infra-estruturas e instituições comunitárias, mas não se conhece um “Plano Angola” detalhado e estruturado, como chegou a haver por exemplo para a Austrália (Kimberley Plan, 1939).

Ainda assim, a ideia chegou a ganhar alguma atenção internacional, mas a conjuntura política europeia, a hesitação de Lisboa, receosa de críticas internacionais e de impactos internos em Angola, e a preferência da maioria dos movimentos judaicos pela Palestina ditaram o seu fracasso.

Qualquer análise deste episódio exige olhar para António de Oliveira Salazar, que então chefiava o regime do Estado Novo. Salazar mantinha uma política colonial profundamente conservadora e centralizada. Angola era vista como espaço estratégico do império, e qualquer projecto de colonização autónoma, sobretudo envolvendo populações estrangeiras organizadas, levantava grandes reservas: receio de perda de controlo político sobre o território; medo de pressões internacionais; preocupação com equilíbrios raciais e sociais na colónia; alinhamento diplomático cauteloso num contexto europeu instável.

Embora não haja registo de uma rejeição formal pública detalhada, a postura do regime foi de contenção e bloqueio indirecto, o que levou ao abandono da iniciativa.

Olhar para estas propostas esquecidas ganha nova relevância à luz dos acontecimentos presentes. O Estado de Israel, criado em 1948, tornou-se o centro político e simbólico da identidade judaica contemporânea, mas também um dos epicentros de conflitos.

A violência actual mostra que, mais de um século depois, as questões que motivaram o territorialismo permanecem dramaticamente actuais.

A diferença é que, enquanto no início do século XX se procuravam territórios alternativos como Angola, hoje o conflito está profundamente enraizado numa geografia específica, onde história, religião, política e dinheiro se entrelaçam num verdadeiro nó górdio.

E se Angola tivesse acolhido, nas décadas de 1930 ou 1940, dezenas de milhares de colonos judeus organizados em cooperativas agrícolas? É possível imaginar um planalto central transformado num mosaico de kibutzes tropicais, com cidades emergentes onde hoje há savanas e a língua hebraica a ser ensinada nas escolas.

Nesse cenário alternativo, a criação de Israel em 1948 talvez não tivesse sido o único polo de atracção – ou, num cenário ainda mais radical da história, poderia até nunca ter ocorrido nos mesmos moldes. Angola tornar-se-ia, assim, um improvável centro da diáspora judaica, com ligações culturais e económicas profundas à Europa e às Américas, mas também atravessada ainda mais por grandes tensões.

Num presente distópico, os ecos da guerra na região a que chamamos de Médio Oriente deixariam de ser distantes para ressoar directamente em solo angolano. Os ataques do Irão, ou de outros actores, não se limitariam à Faixa de Gaza ou aquela zona geográfica, mas poderiam atingir infra-estruturas e comunidades judaicas em África. Angola, nesse mundo alternativo, seria um território caracterizado pela coexistência entre actividades agrícolas e dispositivos de segurança. E nem consigo imaginar como teria sido o processo de Independência…

A ideia de Angola como destino para um Estado ou colónia judaica pertence ao domínio das possibilidades históricas e não dos projectos concretizados. Ainda assim, revela algo muito curioso: num mundo marcado por perseguições, migrações e grandes incertezas, a geografia política não é um facto imutável e inevitável. Muito pelo contrário, não raras vezes resulta de circunstâncias, escolhas e oportunidades, por vezes, quase do acaso.

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